Mais de 6 anos no Exército Brasileiro: o que a farda deixou em mim depois dos 50
25 de agosto é Dia do Soldado. E, para mim, essa data não é apenas uma comemoração no calendário. Ela mexe com uma parte importante da minha história.
Antes de ser o corredor que hoje fala sobre corrida depois dos 50 anos, eu fui soldado. Passei mais de seis anos no Exército Brasileiro, tive a honra de servir no 1º Batalhão de Guardas (1º BG), no Rio de Janeiro, e saí da Força como cabo.
Mais de 30 anos depois de ter entrado para o Exército, algumas coisas mudaram muito. O jovem que aparece na fotografia já não existe da mesma maneira. O tempo passou, o cabelo mudou, as responsabilidades aumentaram e a vida tomou caminhos que eu jamais imaginaria naquela época.
Mas algumas coisas ficaram.
A disciplina ficou. A capacidade de suportar dificuldades ficou. O respeito pelo próximo ficou. E, principalmente, ficou a compreensão de que nem sempre fazemos aquilo que queremos. Muitas vezes fazemos aquilo que precisa ser feito.
E talvez seja aí que o Exército encontre a corrida
Quando comecei a correr depois dos 50, percebi que algumas lições aprendidas décadas antes ainda estavam presentes.
A corrida não negocia.
Você pode estar cansado, pode ter dormido mal ou simplesmente não estar com vontade. O relógio não se importa. A rua não se importa. A distância continua ali.
É preciso sair.
No Exército aprendi que disciplina não significa estar motivado todos os dias. Significa cumprir uma tarefa mesmo quando a vontade não aparece.
Na corrida acontece exatamente a mesma coisa.
Tem dia em que você coloca o tênis pensando em fazer 10 quilômetros e, depois de dois, começa a questionar todas as decisões que tomou na vida.
Mas você continua.
Não porque está fácil.
Porque decidiu.
O jovem soldado e o corredor 50+
Quando olho para aquela fotografia, vejo um jovem que provavelmente não imaginava a quantidade de mudanças que ainda enfrentaria.
Naquela época, eu não pensava em envelhecimento, longevidade ou em correr uma meia maratona depois dos 50.
Hoje, penso muito sobre isso.
E existe uma ironia interessante: aos 50+, comecei a compreender melhor algumas coisas que aprendi quando era muito mais jovem.
Disciplina não é castigo.
Persistência não é teimosia.
Resistência não significa ignorar o cansaço.
E coragem não significa ausência de medo.
Na corrida, assim como na vida, coragem muitas vezes é simplesmente continuar.
Mais de seis anos que não cabem em uma fotografia
Uma fotografia consegue registrar um momento, mas não consegue registrar tudo o que aconteceu antes ou depois daquele clique.
Ela não mostra os dias difíceis, as instruções, os exercícios, as cobranças, as amizades, as responsabilidades e as experiências acumuladas durante mais de seis anos de serviço militar.
Também não mostra o que aconteceu depois que deixei o Exército.
Mas hoje consigo perceber que aquela experiência ajudou a construir uma parte importante de quem eu sou.
E talvez seja por isso que, tantos anos depois, ainda exista orgulho quando lembro daquele período.
Não necessariamente pela patente ou pela farda.
Mas pela experiência de ter servido.
Saí como cabo, mas levei comigo algo que não aparece na carteira de identidade e não desaparece quando a farda é retirada: os valores adquiridos durante aquele período.
Depois dos 50, a corrida ganhou outro significado
Hoje, quando corro meus quilômetros, não estou tentando voltar a ser o jovem daquela fotografia.
Essa é uma diferença importante.
Não quero correr contra o homem que fui.
Quero correr ao lado dele.
O jovem soldado tinha força, disposição e um corpo preparado para outras exigências. O homem de 50+ tem outra coisa: experiência.
E a corrida me ensinou que envelhecer não precisa significar abandonar aquilo que gostamos de fazer.
Podemos adaptar.
Podemos diminuir o ritmo.
Podemos respeitar o corpo.
Podemos correr 5 km, 10 km ou, como aconteceu recentemente comigo, encarar mais de 21 quilômetros depois dos 50.
O objetivo muda.
Antes, talvez fosse provar alguma coisa.
Hoje, é aproveitar a oportunidade de continuar.
A disciplina mudou de uniforme
Existe uma frase que resume muito do que penso atualmente:
A farda mudou, mas a disciplina permaneceu.
Hoje não acordo para uma formação militar.
Acordo para correr.
Não tenho mais um superior determinando que preciso cumprir determinada atividade.
Tenho um compromisso comigo mesmo.
E talvez essa seja uma das formas mais difíceis de disciplina: quando ninguém está olhando.
É fácil cumprir uma obrigação quando alguém está cobrando.
Mais difícil é levantar, colocar o tênis e sair para correr porque você decidiu que aquele treino é importante.
Depois dos 50, a corrida passou a representar isso para mim.
Não é apenas esporte.
É uma forma de continuar exercitando a disciplina que aprendi há décadas.
Dia do Soldado também é dia de lembrar
Por isso, neste 25 de agosto, Dia do Soldado, resolvi publicar essa fotografia no Corrida aos 50+.
Ela pertence a uma fase diferente da minha vida, mas continua fazendo parte da minha história.
Eu fui soldado.
Servi por mais de seis anos no Exército Brasileiro.
Servi no 1º BG, no Rio de Janeiro.
Saí como cabo.
E hoje, décadas depois, continuo aprendendo sobre disciplina — só que agora correndo pelas ruas.
Talvez essa seja uma das maiores lições que o tempo nos ensina: algumas experiências terminam, mas aquilo que elas construíram dentro de nós continua.
A farda ficou no passado.
A história, não.
E quando amarro o cadarço para sair para mais um treino, percebo que aquele jovem soldado ainda está, de alguma maneira, correndo comigo.
Feliz Dia do Soldado.
A todos que um dia tiveram a honra de servir, fica o meu respeito.
A Pátria, a disciplina e as experiências vividas fazem parte daquilo que somos — mesmo muitos anos depois de deixarmos o quartel.

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