10 erros que cometi na corrida de rua depois dos 50 anos
Quando comecei a levar a corrida mais a sério depois dos 50, achei que já tinha maturidade suficiente para não cometer os erros que vejo outros corredores cometendo.
Ledo engano.
A corrida tem uma maneira curiosa de ensinar humildade. Você pode ler sobre treinamento, acompanhar pace, comprar um tênis melhor, assistir a centenas de vídeos e até achar que conhece o próprio corpo. Mas, depois dos 50, algumas regras mudam.
E eu precisei aprender isso, muitas vezes, na prática.
Não foram apenas erros de treino. Alguns foram erros de comportamento, de ansiedade e, principalmente, de falta de paciência.
Hoje, olhando para trás, consigo identificar pelo menos 10 erros que cometi na corrida de rua depois dos 50 anos — e talvez você esteja cometendo alguns deles também.
1. Querer correr rápido demais
Esse foi um dos primeiros.
A gente olha para o relógio, vê o pace e pensa: “Hoje preciso baixar esse tempo”.
Só que o corpo depois dos 50 não responde necessariamente como respondia aos 30 ou 40.
Eu aprendi que correr rápido é importante, mas correr rápido o tempo todo é uma péssima estratégia.
Treinos leves também são treino. Às vezes, correr mais devagar é justamente o que permite correr melhor nos dias certos.
2. Confundir treino forte com treino bom
Outro erro clássico.
Eu achava que, se terminasse o treino cansado, tinha feito um bom trabalho.
Nem sempre.
Um treino bom não é aquele que simplesmente acaba com você. É aquele que produz o estímulo necessário e permite que seu corpo se recupere para o próximo.
Depois dos 50, comecei a entender melhor que treinamento e recuperação fazem parte do mesmo processo.
3. Não respeitar os sinais do corpo
Esse talvez tenha sido um dos mais importantes.
Aquela pequena dor. Aquele incômodo diferente. Aquela sensação de que alguma coisa não está normal.
Muitas vezes a gente pensa: “É só uma dorzinha. Amanhã passa”.
E continua correndo.
O problema é que o corpo geralmente começa sussurrando. Se você não escuta, ele aumenta o volume.
Aprendi que dor não é medalha de honra do corredor.
4. Querer recuperar um treino perdido
Perdeu o treino de segunda? Então na quarta você tenta compensar.
Perdeu dois? Tenta colocar tudo em um treino só.
Outro erro.
A corrida não funciona como uma dívida que precisa ser paga imediatamente.
Perdeu um treino? Perdeu. Volte para a rotina.
Um treino perdido dificilmente vai prejudicar sua evolução. Já um treino exagerado tentando compensá-lo pode tirar você da corrida por semanas.
5. Comparar meu pace com o de corredores mais jovens
Essa é uma armadilha psicológica.
Você olha para alguém correndo a 4:30/km e pensa: “Eu também deveria estar fazendo isso”.
Mas você não conhece a história daquele corredor. Não sabe sua idade, seu treinamento, seu sono, sua genética, seu histórico de lesões ou há quanto tempo ele corre.
E, principalmente, você não está competindo contra ele.
Depois dos 50, minha principal competição passou a ser contra uma versão anterior de mim mesmo.
Se hoje corro melhor, com mais consciência e menos sofrimento do que alguns anos atrás, já existe evolução.
6. Achar que o descanso era perda de tempo
Durante muito tempo, descanso parecia sinônimo de preguiça.
Hoje penso diferente.
Descansar não é deixar de treinar. É permitir que o treinamento aconteça.
É durante a recuperação que o organismo assimila boa parte do estímulo provocado pelo exercício.
Depois dos 50, aprendi a respeitar mais os dias sem corrida.
Às vezes, o treino mais inteligente do dia é simplesmente não correr.
7. Negligenciar a força
Outro erro que muitos corredores cometem.
A pessoa quer melhorar na corrida e pensa apenas em correr.
Só que força também é parte da corrida.
Fortalecer pernas, glúteos, core e outras estruturas importantes ajuda o corredor a lidar melhor com as exigências do esporte.
E depois dos 50 existe ainda uma questão importante: preservar massa muscular e capacidade funcional passa a ser tão importante quanto melhorar o pace.
Não quero apenas correr rápido. Quero continuar correndo daqui a dez, quinze, vinte anos.
8. Achar que todo treino precisava ter um objetivo de performance
Nem todo treino precisa produzir um recorde.
Às vezes corro para melhorar condicionamento. Às vezes para trabalhar velocidade. Às vezes para fazer um longão. E às vezes simplesmente porque gosto de correr.
Esse último motivo parece simples, mas é poderoso.
Quando transformamos toda corrida em uma cobrança por desempenho, podemos acabar esquecendo por que começamos.
A corrida também pode ser prazer.
9. Dar importância demais ao relógio
O relógio é uma ferramenta fantástica.
Mas também pode virar um pequeno tirano.
Pace, frequência cardíaca, distância, cadência, tempo... Tudo isso pode ajudar.
Mas nenhum número consegue contar exatamente como você acordou naquele dia.
Uma noite ruim de sono, estresse, calor, alimentação, trabalho e problemas pessoais também entram na conta.
Hoje vejo o relógio como uma ferramenta para entender meu treinamento, não como um juiz decidindo se fui um bom ou mau corredor.
10. Ter pressa para evoluir
Esse talvez seja o maior erro de todos.
A corrida é uma conversa longa com o corpo.
Eu queria melhorar rápido. Queria correr mais longe. Queria baixar o pace. Queria bater meus tempos.
Só que o corpo não negocia com a ansiedade.
Ele precisa de tempo para se adaptar.
Depois dos 50, percebi que consistência vale mais do que empolgação.
É melhor correr durante anos do que treinar como um louco durante três meses e passar seis meses parado.
O que esses erros me ensinaram
Hoje eu vejo meus erros de outra maneira.
Eles não foram apenas erros. Foram professores.
A corrida me ensinou que envelhecer não significa necessariamente parar de evoluir. Significa aprender a evoluir de outra forma.
Talvez aos 20 anos eu pudesse pensar apenas em velocidade. Aos 30, em performance. Aos 40, em resultados.
Mas depois dos 50 comecei a enxergar outra coisa.
Quero continuar correndo.
Quero acordar daqui a alguns anos e ainda sentir vontade de colocar o tênis e sair pela rua.
Quero correr com meus amigos. Quero disputar uma prova de vez em quando. Quero melhorar meus tempos quando for possível.
Mas, acima de tudo, quero preservar a liberdade de continuar fazendo aquilo que gosto.
Porque depois dos 50, talvez a maior vitória não seja correr mais rápido.
É continuar correndo.
E se eu pudesse conversar com o corredor que começou essa jornada alguns anos atrás, provavelmente diria apenas:
“Tenha menos pressa. Escute mais o seu corpo. Treine com inteligência. E não se esqueça de aproveitar a corrida.”
Porque, no fim das contas, não estamos correndo apenas contra o relógio. Estamos correndo contra o tempo.
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