Quando o aplicativo para de marcar, você continua correndo
Aconteceu uma coisa curiosa no meu treino. Eu estava correndo normalmente, naquele ritmo em que a gente já conhece o próprio corpo, quando percebi que o aplicativo tinha parado de marcar a distância.
Olhei para o relógio, mexi no celular, tentei entender o que tinha acontecido. Nada. O GPS simplesmente resolveu me abandonar.
Por alguns segundos pensei: “E agora?”
A verdade é que nós, corredores, acabamos ficando muito presos aos números. Queremos saber quantos quilômetros fizemos, qual foi o pace, o tempo, a média e a evolução. E não há nada de errado nisso. Os números ajudam a acompanhar o treinamento e mostram o quanto estamos evoluindo.
Mas naquele momento eu pensei: se o aplicativo parou de marcar, a corrida também precisa parar?
Continuei.
Continuei porque eu não tinha saído de casa para correr atrás de um número na tela. Eu tinha saído para correr.
Depois dos 50, a gente começa a enxergar algumas coisas de maneira diferente. Já não tenho a mesma velocidade de quando era mais jovem, mas aprendi a valorizar muito mais a constância.
Hoje, para mim, completar um treino é mais importante do que provar alguma coisa.
Se o relógio marca 8 quilômetros, ótimo.
Se marca 10, melhor ainda.
Mas se ele falhar no meio do caminho, eu ainda sei que minhas pernas continuaram trabalhando, que meu coração continuou batendo mais forte e que eu continuei fazendo aquilo que me propus a fazer.
E talvez essa seja uma das maiores lições que a corrida me ensinou depois dos 50: nem tudo que importa pode ser registrado por um aplicativo.
Ele não registra a disciplina de levantar cedo.
Não registra a vontade de desistir que você venceu.
Não registra aquele dia em que você estava cansado, mas mesmo assim colocou o tênis.
Não registra a satisfação de chegar em casa sabendo que você cumpriu a sua parte.
O aplicativo pode parar de marcar.
O GPS pode falhar.
O relógio pode ficar sem bateria.
Mas a corrida continua.
E, naquele dia, continuei correndo sem saber exatamente quantos quilômetros faria.
Porque algumas vezes a gente precisa correr sem olhar para a tela para lembrar por que começou.
Depois dos 50, não corro apenas para acumular quilômetros. Corro para continuar acumulando vida.
Comentários
Postar um comentário
Não divulgamos links.Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Momento Verdadeiro.