O que Helena, de Machado de Assis, me ensinou sobre correr depois dos 50
Reli Helena esses dias, e quando fechei o livro, pensei em uma coisa meio estranha: na minha corrida da manhã seguinte. Parece papo sem nexo, eu sei. Mas fica comigo até o final, porque acho que Machado de Assis tem mais a dizer sobre correr depois dos 50 do que qualquer artigo de revista sobre "exercícios para a terceira idade".
Pra quem não lembra da história: Helena chega numa família sem saber direito qual é o seu lugar ali, carregando um segredo que nem é totalmente dela, e passa o romance inteiro se comportando exatamente como se espera de uma mulher naquela posição — grata, contida, impecável. Ela segura a postura em público o tempo todo, enquanto por dentro vive outra coisa completamente diferente. É um livro sobre a distância entre o que a gente mostra e o que a gente carrega.
E foi aí que a ficha caiu. Porque essa distância também é oferecida pra gente, depois dos 50, todo santo dia.
Existe um roteiro pronto que esperam que a gente siga: que o corpo já deu o que tinha que dar, que é hora de desacelerar de verdade, que tentar melhorar tempo de prova ou correr uma distância maior é, no fundo, negar a idade. E tem uma tentação enorme de aceitar esse roteiro com a mesma elegância resignada de Helena — sorrir, concordar, e guardar pra dentro a vontade de fazer diferente.
O corpo não tem a menor paciência com aparência
A diferença é que a corrida não deixa esconder nada. Não adianta se comportar bem, seguir a etiqueta, fingir conformidade: o corpo só responde ao que você de fato faz — quanto treinou, quanto dormiu, como se alimentou, se descansou o suficiente. Correr é um dos poucos lugares da vida adulta em que a distância entre o que você mostra e o que você é praticamente desaparece. Ali, na pista ou na rua, você é exatamente o que treinou pra ser, nem um pouco mais.
Resignação não é disciplina
Tem uma diferença importante entre resignação e disciplina, e acho que é isso que Helena, sem querer, ajuda a enxergar. Resignação é aceitar um limite que puseram na sua frente porque parece mais fácil não questionar. Disciplina é escolher um limite — e depois trabalhar pra empurrá-lo um pouco mais adiante, sabendo exatamente por quê. A primeira é imposta; a segunda é escolhida. E é justamente essa escolha que muda a forma como o cérebro interpreta o esforço: cansaço que a gente escolheu enfrentar pesa menos do que cansaço que foi empurrado goela abaixo.
Helena vive e morre dentro de um roteiro que não escreveu. A corrida, pra muita gente que começou depois dos 50, tem sido exatamente o oposto disso: o momento em que a gente para de viver de acordo com o que esperam e passa a testar, na prática, o que o corpo ainda é capaz de fazer. Não tem nada de resignado em amarrar o tênis às 6 da manhã.
E você, já teve alguma leitura que te fez enxergar a corrida — ou a vida depois dos 50 — de um jeito que não esperava? Conta aqui embaixo, tenho curiosidade de saber.
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