Tudo vale a pena quando a corrida amplia a alma
Tem uma frase do Fernando Pessoa que muita gente repete como se fosse slogan de camiseta, mas pouca gente encara de verdade:
“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.”
Quando a gente traz isso pra corrida — especialmente depois dos 50 — o sentido muda completamente.
Porque vamos ser honestos:
- não é mais sobre provar nada pra ninguém.
- Não é sobre pódio.
- Nem sobre bater recorde de juventude.
É sobre continuar inteiro.
O preço da corrida (que ninguém romantiza)
Correr cobra. Sempre cobrou.
Cobra acordar cedo, cobra disciplina, cobra enfrentar o corpo duro, o ritmo que oscila, o dia em que a cabeça não ajuda.
E aí vem a pergunta que o Pessoa jogou na mesa, sem anestesia:
vale a pena?
Vale — desde que a alma cresça junto.
Se a corrida vira só cobrança, comparação e frustração, algo deu errado.
Mas quando ela vira travessia, muda tudo.
O Bojador depois dos 50
No poema, Pessoa fala do Bojador — um limite temido, um ponto que assustava os navegadores.
Na nossa fase da vida, o Bojador tem outros nomes:
- medo de recomeçar
- receio de se machucar
- insegurança com o ritmo
- aquela voz dizendo “isso não é mais pra você”
Passar além do Bojador não é ignorar a dor.
É não deixar que ela mande.
Correr aos 50+ é isso: respeitar o corpo, mas não se apequenar por causa dele.
Não é sobre pace. É sobre sentido.
O relógio marca minutos.
A corrida marca escolhas.
Cada treino é uma resposta silenciosa à vida sedentária, à desistência precoce, ao “deixa pra lá”.
É dizer: ainda estou aqui.
E isso amplia a alma.
No fim das contas
Pessoa não estava falando só de navios e mares.
Ele estava falando de qualquer pessoa que decide atravessar limites com consciência.
Na corrida, a pergunta não é “quanto tempo você fez”.
É: você saiu maior do que entrou?
Se saiu, valeu a pena.
- Mesmo lento.
- Mesmo difícil.
- Mesmo imperfeito.
Porque correr depois dos 50 não é sobre competir com o passado.
É sobre não encolher no presente.
E isso, meu amigo, vale cada passo.