Nem toda corrida é sobre pace: Freud, Lacan e Winnicott explicam
(ou: o que Freud, Lacan e Winnicott diriam sobre a sua corrida)
Quem corre há algum tempo já percebeu:
chega uma fase em que não é mais só sobre quilômetros, pace ou medalha.
Você até treina direito, cumpre planilha, posta no Strava…
mas, em alguns dias, algo parece fora do lugar.
É aí que entra uma pergunta incômoda:
👉 por que eu corro do jeito que corro?
Curiosamente, três psicanalistas clássicos ajudam a pensar isso — mesmo sem nunca terem calçado um tênis de corrida.
Freud diria: “você corre contra você mesmo”
Freud enxergaria a corrida como um campo de forças internas.
Existe um impulso para ir mais rápido, mais longe, mais forte.
E existe outra parte tentando segurar: medo de falhar, de se machucar, de não corresponder.
Quando essas forças entram em guerra, o corpo acusa:
- tensão excessiva
- dores recorrentes
- ansiedade antes do treino
- frustração constante
Para Freud, o problema não é correr forte.
O problema é reprimir demais ou se cobrar sem escuta.
Em outras palavras:
muita lesão começa na cabeça antes de aparecer na perna.
Lacan diria: “para quem você está correndo?”
Lacan olharia para o mesmo treino e faria outra pergunta:
👉 quem você quer que veja essa corrida?
Hoje, é fácil cair nessa armadilha:
- pace comparado
- ranking
- curtidas
- comentários
- validação externa
Você corre, posta… e mesmo assim sente que nunca é suficiente.
Sempre falta 1 segundo, 1 km, 1 elogio.
Para Lacan, isso acontece porque o desejo nasce no olhar do outro.
A corrida vira imagem.
O corpo vira vitrine.
E aí você até melhora o desempenho,
mas perde o prazer.
Corre mais, sente menos.
Winnicott diria: “você se sente real quando corre?”
Winnicott iria por outro caminho.
Provavelmente, falaria menos e observaria mais.
Ele perceberia se:
- seu corpo está rígido ou solto
- sua respiração flui
- existe prazer no movimento
- você consegue esquecer o relógio por alguns minutos
Quando isso acontece, algo especial surge:
a corrida deixa de ser tarefa e vira experiência viva.
Para Winnicott, correr pode ser uma forma adulta de brincar.
Um momento em que o corpo vira casa, não campo de batalha.
Não é sobre performance.
É sobre habitar o próprio corpo.
O ponto que une tudo isso
Talvez o maior erro seja achar que:
- mais controle sempre é melhor
- mais cobrança sempre traz resultado
- mais comparação sempre motiva
Na maturidade, a gente começa a aprender o contrário.
Correr bem não é só correr rápido.
É correr inteiro.
Com presença.
Com escuta do corpo.
Com respeito ao limite do dia — não ao ego de ontem.
Uma provocação final
Talvez você não precise:
- de outro relógio
- de outra planilha
- de mais pressão
Talvez precise apenas responder com honestidade:
👉 Quando eu corro, eu me sinto vivo… ou só avaliado?
Porque no fim das contas,
o melhor pace é aquele que te mantém em movimento por muitos anos —
com corpo, mente e prazer correndo juntos.
Se você chegou até aqui, é sinal de que essa pergunta já começou a trabalhar dentro de você.
E isso, por si só, já é um bom treino.