Santo Agostinho Errou Sobre o Tempo — E a Corrida Prova Isso
Outro dia eu estava ouvindo um psicólogo explicando como Santo Agostinho pensava sobre o tempo. E é impossível negar: o homem era afiado. Quando ele diz que o passado vive na memória, o futuro na expectativa e o presente na atenção, dá vontade de levantar e aplaudir. Aquilo é ouro filosófico. É psicologia antes da psicologia existir.
Mas aí vem o problema.
Agostinho pensa o tempo com um pé na genialidade… e o outro cravado no altar. E isso enfraquece o discurso.
Não porque religião seja “burra”, mas porque a explicação religiosa encerra o debate cedo demais. Quando ele diz que o tempo existe porque Deus o criou, e que a eternidade pertence só a Deus, a pergunta deixa de ser investigada. Ela é selada. Carimbada. Resolvida à força.
E o tempo não aceita esse tipo de resposta.
O tempo não é um conceito que se resolve no papel. Ele se resolve — ou melhor, se complica — na experiência.
Quem corre depois dos 50 sabe disso melhor do que qualquer teólogo.
O relógio diz que passaram 40 minutos.
O corpo diz outra coisa.
A mente diz outra completamente diferente.
Há dias em que 5 km parecem eternos.
E há dias em que 10 km passam sem aviso.
Se o tempo fosse uma entidade objetiva, fixa, criada e controlada fora de nós, isso não aconteceria. Mas acontece. O tempo se dilata, encolhe, pesa, some. E isso não tem nada de divino. Tem tudo a ver com atenção, fadiga, expectativa e sentido.
Aqui Agostinho acerta e erra ao mesmo tempo.
Ele percebe que o tempo não está “lá fora”. Ótimo.
Mas, no instante seguinte, diz que a resposta final está em Deus. Ruim.
Porque a grande coragem filosófica seria dizer:
“Não sabemos o que é o tempo. Só sabemos como ele nos atravessa.”
Isso ele não diz.
Talvez porque admitir isso seria perigoso demais para a teologia. Um tempo que nasce da consciência coloca o ser humano no centro da experiência — e não Deus. E isso, para Agostinho, era inaceitável.
Agora, vamos trazer isso para a corrida.
Quando você está parado, pensando nos problemas, o tempo vira um fardo.
Quando você está correndo, respirando, focado no próximo passo, o tempo vira pano de fundo.
O tempo não manda.
Quem manda é o estado mental.
É por isso que a espera cansa mais do que o esforço.
É por isso que desistir parece rápido, mas insistir parece longo.
É por isso que a corrida vira uma espécie de laboratório filosófico ambulante.
Correndo, a gente aprende uma verdade que Agostinho quase tocou, mas não teve coragem de assumir:
👉 o tempo não é uma criação divina; é uma construção da consciência em atrito com a realidade.
Depois dos 50, isso fica ainda mais evidente.
O tempo cronológico diz que estamos “envelhecendo”.
O corpo diz que ainda pode evoluir.
A mente oscila entre os dois.
E aí surge a pergunta que realmente importa — e que nenhuma teologia responde:
como habitar o tempo que temos sem desperdiçar energia lutando contra ele?
A corrida não responde isso com palavras. Responde com experiência.
Ela ensina que o presente não é um ponto fixo, é um estado de atenção.
Que o passado só pesa quando vira culpa.
E que o futuro só assusta quando vira ansiedade.
Talvez Santo Agostinho estivesse a um passo de uma revolução.
Mas escolheu a segurança da fé em vez do risco da dúvida.
Nós, corredores aos 50+, não temos esse luxo.
Ou aprendemos a lidar com o tempo como ele se apresenta — instável, subjetivo, imprevisível — ou ele nos engole em forma de medo, pressa e frustração.
No fim das contas, o tempo não mora no céu.
Ele mora no corpo.
E cada passada é uma forma silenciosa de negociação com ele.