Correr Depois dos 50 É um Despertar (E Nem Sempre Confortável)

Assisti recentemente ao filme Tempo de Despertar e fiquei com aquela sensação incômoda boa — a de quem não termina igual começou. Não é um filme fácil, nem feito para agradar. E talvez seja exatamente por isso que ele dialoga tão bem com quem decidiu correr depois dos 50.

O filme não fala sobre milagres. Fala sobre consciência. E isso muda tudo.

Despertar não é melhorar o pace

No filme, pacientes que passaram anos “adormecidos” despertam graças a um tratamento experimental. Mas o despertar não é uma vitória simples. Quando eles acordam, percebem o tempo perdido, o mundo que seguiu sem eles, as escolhas que não puderam fazer.

Na corrida, acontece algo parecido.

Muita gente começa a correr depois dos 50 não porque quer medalha, mas porque acordou. Acordou para o corpo, para a saúde, para o tempo que não volta. E esse despertar dói um pouco. A gente percebe que poderia ter começado antes. Que negligenciou sinais. Que adiou demais.

E tudo bem. Despertar nunca é confortável.

Correr é um ato de lucidez

No filme, o médico interpretado por Robin Williams insiste em tratar pessoas como pessoas, não como números ou diagnósticos. Ele assume o risco de devolver a experiência humana, mesmo sabendo que ela vem com sofrimento.

Correr depois dos 50 é parecido.

  • Você sabe que:
  • vai sentir desconforto,
  • vai precisar respeitar limites,
  • vai enfrentar dias ruins.

Mesmo assim, escolhe correr.

Porque correr não é fuga. É presença. É dizer: “eu estou aqui, agora, com o corpo que tenho e a vida que sobrou — e isso basta”.

O erro não é despertar tarde. É nunca despertar.

O filme deixa uma mensagem dura: alguns pacientes despertam por pouco tempo. Mas aquele breve período consciente valeu mais do que anos de anestesia.

Na corrida, não importa se você começou aos 30 ou aos 60.

Importa se você está vivendo o treino ou apenas cumprindo protocolo.

Correr sem presença é só deslocamento. Correr desperto é experiência.

Depois dos 50, correr é escolher não se anestesiar

Muita gente não corre porque diz que está “velha demais”. Na prática, está cansada de sentir. Correr exige contato com o corpo, com a respiração, com o limite. E isso assusta.

Mas a verdade é simples e incômoda:

não é a idade que impede a corrida — é o medo de despertar.

Correr depois dos 50 é um ato silencioso de coragem. Não para provar nada a ninguém. Mas para não passar pela vida no modo automático.

Para fechar

Tempo de Despertar não promete finais felizes.

A corrida também não.

Mas ambos oferecem algo mais valioso: lucidez.

E, depois dos 50, isso já é vitória suficiente.